Eu não tinha o costume de pensar — assim, a fundo — sobre minha morte. Quando chegar a hora… Mas a paternidade me trouxe um medo de morrer dos diabos.

De uns tempos pra cá, B. descobriu (à sua lógica) que algumas pessoas que ele “conhece” já morreram — o que quer que isso signifique na cabeça dele. Para ele, o critério é: se X já morreu, não dá pra ver um show dele. Só um filme ou vídeo. Mas às vezes ele ainda se confunde sobre o que não estar mais aqui significa.

Vira e mexe — ontem mesmo — durante o sagrado momento do cocô, ele me pede: “Papai, fala aí todo mundo que morreu”. Então passamos pela lista de contatos mais próximos: John Lennon, George Harrisson, Elvis, David Bowie, Fred Mercury, vovô Roberto, Jimmy Hendrix, Joey Ramone… Após isso, vem uma lista de perguntas: “O Kiss já morreu?” essa negativa é sempre acompanhada de uma sensação de alívio. “O Paul? A Fortuna? A Aíla? O Biso? A Bisa? [estes já estão dobrando o Cabo da Boa Esperança, mas seguem firmes até segunda ordem]” e por aí vamos até o “Acabei”.

Mas como nada é tão fácil assim, às vezes vem perguntas como: “Você e a mamãe vão morrer? Já pensou se eu morresse? Todo mundo vai morrer?” E aí é que os ovos são postos no chão e, se caminhar é preciso, hay que hacerlo con ternura.

O mundo moderno nos distanciou da morte (e essa afirmação tem uma vasta literatura que a sustenta). Se antes velávamos nossos entes queridos à mesa de jantar, hoje morrer é cada vez mais um processo ou solitário num frio quarto de hospital, ou espetacularizado — antes nas praças, hoje nas redes sociais.

E pouquíssimas coisas são tão fascinantes quanto a morte. A única certeza e o mistério final. O que acontece? Tem algo depois? Não tem? Dói? Compreensível a curiosidade de B. Mas como explicar o que não se sabe?

Algumas coisas são fáceis de se explicar, principalmente as que tem relação direta entre causa e efeito. Fez isso, acontece aquilo. Dá até pra se apoiar na muleta do “Porque sim” sem grandes constrangimentos. Mas há aquelas que não há escola, erudição, leituras que dão conta: como ensinar empatia? Ou como ensinar sobre a morte?

Suspeito que de alguma avó veio o lance de “virar estrelinha”. Funcionou, mas logo vai ficar confuso. Não posso dar minha opinião 100% verdadeira porque pode ser mais chocante do que se revelar que aquele velhinho que fica dezembro todo no Shopping Santa Cruz está pouco se lixando pro que B. quer ganhar de Natal. Ficamos então naquela corda bamba — inerente à pater/mater nidade — de escolher o que se conta e o que se omite. Do que proteger e o que expor.

Todos os dias a gente é bombardeado por esse clima de “dedo no cu e gritaria” que 2019 trouxe — e que vai demorar passar. É dificílimo não passar pras crianças seus próprios medos, para que não virem delas também. Dia sim, dia não, tenho pesadelos com ele caindo de lugares altos — meu cagaço maior entre todos os outros cagaços que viver no Brasil neste momento nos traz. Agora, se isso chegar até ele, não se vive. O medo pelo medo anula a vida.

Eu acho que é preciso, sim, falar sobre a morte com as crianças. Usando as metáforas que couberem melhor aí na sua família. Perdas próximas são irreparáveis e cada um vai lidar com elas à sua maneira. Mas entender que isso faz parte da vida destrava várias outras questões. A morte ajuda, de certa forma, a gente a viver melhor.

Se fizermos um recorte ali entre os 15 e 20 e alguns anos, eu e você conseguiremos identificar um punhado de situações onde a gente podia ter morrido. Por imprudência ou acaso. Para algumas pessoas, pelos motivos mais inceitáveis, isso infelizmente é uma rotina muito maior do que foi pra mim.

Essa semana defendi numa aula que a gente se atrai tanto pelas desgraças porque elas passam uma certa sensação de segurança. Ver do quentinho da sua casa alguém se dar mal — mesmo morrer — traz inconscientemente uma sensação de “Ainda bem que não é comigo”. Depois de ser pai, sempre que algo ruim acontece com uma outra criança, mudei a pergunta para: “E se fosse comigo?”