Neste primeiro texto, quero falar um pouco sobre a relação entre paternidade e o tempo. Para ler ouvindo:

Fato incontestável: ter um filho vai mudar sua vida. Para o bem, na maioria das vezes. Imagino que aqueles que descobrirem uma gravidez por acaso, ou indesejada possam ter uma relação diferente da que eu quero relatar aqui. Mas, se assim como rolou aqui em casa, o bebê foi pensado, planejado e querido, as estruturas do que você conhecia como vida, rotina e tudo mais vão sofrer um baque.

E, não, você nunca vai estar preparado para o que virá. Você pode ter feito investimentos a vida inteira, ter ganho na loteria, ser herdeiro: grana vai ser sempre uma questão. Pode ter lido toda a biblioteca sobre parto, gestação, criação, puerpério: esses pequenos sempre vão chegar com alguma novidade que não estava nos livros, textos e relatos. Talvez você tenha passado os 9 meses (ou como quem está grávido sempre gosta de contar, as 30 e tantas semanas) se planejando e ensaiando como agir em cada situação, sempre vai precisar rolar um improviso. E essa imprevisibilidade é talvez a maior graça de tudo isso.

Seu tempo nunca mais será o mesmo. Até o mais metódico dos seres vai se embananar com um bebê em casa. Não há planner no mundo que dê conta dos imprevistos que vão rolar. Das crises de madrugada, das cagadas fora de hora (e de casa), das horas que você vai tocar o foda-se porque brincar de imitar uma careta e fazer ele gargalhar é a coisa mais divertida do mundo, mais do que qualquer outra coisa. Sua relação com o tempo muda mesmo sem você perceber.

Tudo vira relativo. Há dias que demorarão semanas. Horas que passarão voando. Coisas que você quer que aconteçam que talvez nunca chegarão. E aquela sensação de que está passando tudo muito rápido vai ser uma constante.

Essa relação do tempo acaba sendo também um paradoxo para os pais. Qualquer pessoa que ficar sem ver sua criança por mais de uma semana vai levar um susto. “Como elx cresceu!”, “Nossa, mas elx já sabe fazer X, Y ou Z?”. Você não vai perceber isso porque o está acompanhando diariamente. Mas quando parar pra olhá-lx dormindo, todos esses “Nossa!” virão ao mesmo tempo, num turbilhão.

Uma conta que eu vivia fazendo é: “quando ele tiver X anos, vou ter Y”. Isso é igual nota do vestibular. Naquela hora parece a coisa mais importante do mundo. Logo depois, é a informação menos relevante. O primeiro da lista vai penar pra tirar 6 igual ao que entrou na oitava chamada. Ficar preso nisso traz o risco de não aproveitar os anos que estão ai — e que vão passar voando.

Faz três anos que não conseguimos sair de casa na hora. Vestir uma meia pode levar de 30 segundos a 5 minutos. Um café da manhã às vezes leva meia hora a mais do que o planejado. Às vezes acho que meu filho é a reincarnação de um mascate marroquino, de tanto que tenta negociar. Tudo. E isso faz parte do jogo que escolhemos jogar por aqui: o de respeitar as vontades, sem tentar impor a maioria das coisas (como foi provavelmente a criação da maioria de nós aqui).

Uma coisa é certa: xs pequenxs percebem quando o tempo que você está dedicando a eles é meia-boca. É muito melhor jogar limpo: “vamos brincar por X minutos, depois eu tenho que trabalhar/fazer outra coisa”. Podem ser 5 minutos, 10, uma hora. Mas tente REALMENTE dedicar esse tempo à criança. Sua vida não vai parar, as obrigações vão continuar (algumas até aumentam), não é preciso largar tudo pra virar o animador de buffet infantil da sua própria casa. Mas esse tempo que você passar com elx, por menor que seja, é dos bloquinhos que vai montando a personalidade dessa pessoinha que vive aí debaixo do teu teto.

Se dedicar totalmente é difícil. Vira e mexe me pego dando uma olhadela no celular no meio da bincadeira, seja por algo importante do trabalho, seja por querer ver alguma notificação. Acontece. Mas cada “Papai, por que você tá olhando o celular agora?” Dá um apertinho no coração.

Vencer uma discussão no “porque sim” é bem fácil. Vai te “poupar” minutos, vários. Mas e aí, o que você vai querer fazer com eles depois? Será que vai valer a pena?